Da infância a Buñuel

Não brinco mais de esconde-esconde, nem assisto desenhos na casa de amigos. Aos poucos minha infância desvanesceu. Sem dúvida não gosto dos mesmos filmes que naquela época; apesar do efeito nostálgico, a fase americana do John Woo não me é de todo agrado nos dias de hoje. Tampouco musicalmente, a vergonha me impede de citar o que eu escutava na infância (claro que passei pela fase de MTV, mas foi curta, juro), porém hoje posso dizer que sou quase cem por cento feliz com meu ouvido musical. Sei quem é Little Walter, Charles Mingus e Sam Cooke, nomes que antigamente eu jamais imaginaria. Todavia, na música algo permaneceu: Radiohead.

Eu ouvia Coldplay na infância, com o tempo diversos foram os comentários: “radiohead é melhor”, logo comprei o Kid A e ouvi ele a semana inteira, então comprei o OK Computer e foi sem dúvida a maior perturbação que meus vizinhos já tiveram em todas suas respectivas vidas: imagine um CD a tocar doze horas por dia, no volume máximo, por todo um mês.
Não gostava de Radiohead por modinha, havia ninguém para eu me gabar do meu novo The Bends, eu simplesmente gostava da banda e a carregava como um manto (nunca fui de modinhas, arrumei uma pulseira LIVESTRONG quando a modinha havia passado e a uso até hoje, bizarro quando a onda acaba e as pessoas deixam de se importar com o câncer).
Acho que o tempo me deixou mais sensível e isso é toda uma questão de tato: a capacidade de contar, uma por uma, as gotas de chuva sobre sua cabeça. Comecei a diferenciar o que me soava melhor, pois ouvia límpido então e o que perdia a poesia com o tempo ficava para trás.
Radiohead sobreviveu e quanto mais eu aprendo sobre a essência da poesia mais eu admiro a banda, simplesmente porque eles fazem música de verdade (explicarei).
Se contares desde a época das cavernas a pintura demorou milênios para se desprender da lógica (afinal, é impossível fugir do real); a poesia também demorou anos para entrar no seu Modernismo. O cinema aprendeu cedo que a arte consiste em sentir, não em comunicar, poucos nesse aspecto se arriscaram tanto quanto Luis Buñuel.
Antes de entrar no cinema, algumas citações do por quê de Radiohead ignora a lógica em busca da força do verso. O que importa é o impacto: poesia não é só beleza, no sentido de que a poesia consiste em despertar lembranças e sentimentos, o nojo é tão emoção quanto a alegria.

Alone on an aeroplane
Fall asleep on against the window pane
My blood will thicken

This is my final fit,
my final bellyache,

I’m your superhero,
we are standing on the edge.

Cheap sex and sad films
Help me get back where I belong

Dinosaurs roaming the Earth

We’re not scaremongering
This is really happening

Ambition makes you look pretty ugly
Kicking and squealing gucci little piggy

i jumped in the river and what did I see?
black-eyed angels swimming with me
a moon full of stars and astral cars
all the figures i used to see
all my lovers were there with me
all my past and futures
and we all went to heaven in a little row boat

Open up, begin again
Let’s go down the waterfall

Once again, packed like frozen food and battery hens
Think of all the starving millions
Don’t talk politics and don’t throw stones
Your royal highnesses

Go & tell the king that
The sky is falling in
When it’s not

we are accidents
waiting waiting to happen.

A arte é isso, é uma porrada na cara, sendo que aqui estou me concentrando apenas nos dizeres de Thom Yorke, desconsiderando todo o som que essa literatura não consegue transmitir, porém é mais da literatura que a música aprendeu a escapar (assim como é o que o cinema precisa).
Nem toda forma artística possui a função de contar histórias, porém todas podem, contudo, o que deveria ser uma escolha tornou-se uma obrigação, especialmente no cinema.


No final da década de 20 dois jovens resolveram negar o conceito literário no cinema e criaram o Surrealismo no cinema. Esses jovens seriam Luis Buñuel e Salvador Dali. Todo mundo sabe o que ocorreu com o pintor, já Buñuel prosseguiu com o surrealismo no cinema, só que em doses amenas. Após seu primeiro curta: Un Chien Andalou, realizou ao lado de Dali; L’Age d’Or, todos bases do movimento surrealista do cinema, não sei se alguém tentou o surrealismo naquele momento, sabe-se que a estética Dada foi criada na Cinematografia Francesa com Renè Clair e seu Entreato, porém, são nitidamente diferentes.
Eu poderia falar por alguns minutos sobre minha admiração por Un Chien Andalou e seu segundo corte, que considero como um convite ao espectador para uma aventura surreal, entretanto, após esses dois filmes, Buñuel contava histórias, mas todas com toques surrealistas até chegar na que considero sua obra-prima: Um Anjo Exterminador. É ver para crer.
Buñuel foi o diretor favorito de muitos diretores como Tarkovsky, Bergman (esses tenho como certeza, mas não duvido que Fellini, Bresson e até Chaplin possam estar nessa seleção), contudo ninguém foi tão drástico quanto o espanhol, Lynch tenta, mas não consegue. Simplesmente acho que escrevi esse texto todo para reclamar que o cinema precisa embarcar no compasso da música, esquecer a história, negar a literatura e arriscar um pouco na nítida poesia, na imagem, assim como a música se arrisca apenas no som de sopros e acordes quando os considera suficientes para a catarse.

Temos seis bilhões para educar.

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