O Caminhante Atencioso

A jornada começa em Mercúrio, de lá um ínfimo percurso, comparado ao original, pelo Sistema Solar toma prumo.
Como de se esperar, o caminho até a Terra é tranqüilo, pela ausência de periféricos, além de que os bólidos que circundam em suas longas órbitas elípticas não oferecem perigo ao caminhante atencioso. Na Terra, por mais incrível que pareça, o mais próximo da Lua é um grande “M” iluminado; quem sabe uma metáfora do futuro da publicidade.
A chegada em Marte não possui marcianos ou espaço-naves, como reza a lenda. Por ventura notei nenhum satélite nos arredores do planeta. Sempre me disseram que eram pequenos, mas não imperceptíveis!
Os alienígenas que deveriam habitar o planeta vermelho, pelo visto, locomoveram-se para o interlúdio entre o deus da Guerra e o planeta gigante. Rumo ao Jupiter, provavelmente cruzando por Ceres, os nativos se mostram em seletos grupos, festando de modo reservado, porém, são cordiais, cedem cigarros, diferente de alguns perdidos que encontrei próximo de Vênus, que apenas os pediam. O clima do ambiente é pesado, como se, apesar do cuidado com o estrangeiro, as tribos estivessem prestes a se chocar em uma guerra, especialmente cultural.
Mas Júpiter nem é tão grande quanto dizem, tampouco tão vermelho, após breve intervalo na estrada, Saturno se vê soberbo, obstante os boatos, os únicos anéis de Saturno são os que a minha imaginação traça na fumaça que minha boca expele, com os cigarros jupiterianos.
Quando Urano ostenta todo seu verde perante a curva de sua órbita, inicia-se um caminho solitário, que sempre o fora, mas apenas agora se mostrou perceptível. O Sol exibe-se pequeno, a saudade de seu calor aperta, mas o retorno é inválido nesse momento. Deixar a inércia carregar o caminhante atencioso, isso é o que se deve fazer.
Netuno não é tão azul quanto aparenta, é um tanto fétido, na realidade, as coisas estão ficando geladas por aqui.
No perímetro de Plutão, a luz solar cede lugar aos néons de outras galáxias, a estrela maior de nosso sistema é uma lembrança querida nesse momento. Minha morada fica na esquina de Caronte, o que é um tanto fúnebre de se dizer, quem sabe esse clima pútrido, após o fedor netuniano, seja uma metáfora adequada da situação, já que as luzes plutonianas de metáfora tem nada.
Caro leitor, presumo que o trajeto esteja no fim e que deveras ter notado um equívoco nesta narrativa, o Sol não foi tomado como ponto de partida e, enquanto abro o portão de minha casa, digo-lhe o por quê: a história era outra, nos arredores do Sol sua coroa abraça, a jornada do caminhante atencioso é nada além de uma história de saudade. Talvez um dia ele tente colocar em palavras a história de quando está no Sol, contudo, nada se pode garantir.

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