O Vermelho das Sirenes

A noite desce leve, como o vestido das femme fatales dos filmes noir antigos, o degradê de azul, tocando o preto, como se delineasse as curvas de uma Rita Hayworth. Ainda são sete horas, a noite é imponente, mas existem resquícios de dia visíveis do parapeito da janela de meu quarto.
Checo a carteira, preciso comprar meu Marlboro, e dentre os documentos não há um tostão sequer, se a bodega que eu compro permitisse o uso de cartões de crédito o problema estaria sanado, embora tampouco cigarros ou bebidas alcóolicas sejam vendidas nesse método. Cash only, como dizem por aí.
Por sorte há um caixa eletrônico próximo da esquina de minha casa, procuro uma camiseta seca no varal, todas permanecem molhadas, o vício em nicotina não permite uma vida de lavanderias à seco, entre outros tantos luxos. Há uma camiseta que não gosto muito em meu guarda-roupa, mas, sem escolha, a visto. Ela é de um tom claro, sou um cara que precisa que suas roupas sequem na sombra, caso lavaste as próprias cuecas alguma vez saberás o que digo, possui uma logomarco colorida estampando sua frente e um blá-blá-blá desbotado na parte de trás. Foi uma camiseta cara, talvez a mais cara que tenho no roupeiro.
Pergunto-me diariamente como em um prédio com mais de 20 apartamentos preenchidos nunca esbarro com alguém no elevador. Ele é pequeno e uma sensação de claustrofobia é inevitável mesmo para os destemidos, a descida é rápida e logo a sola de meu pé visava o concreto da calçada, atravesso a avenida, próximo de um ponto de ônibus, um homem cruza a rua correndo e vem em minha direção, súbito penso que pedirá por informação, súbito ele pega meu braço e declara um assalto, declino ao desejo dele e logo me livro de seu agarrão, desviando e prosseguindo pela calçada. Ele me ameaça de morte e nego toda palavra que sai da boca dele. Dizia estar armado, não acredito, conheço esse truque, não sou paulista mas sou cachorro velho. Ele permaneceu no ponto de ônibus, talvez pensando na minha reação, estava orgulhoso de meu drible, entrei no hospital e em seu hall liguei para a polícia. Descrevi o indivíduo com exatidão, o que não era muito difícil, afinal ele trajava uma camiseta verde-clara e uma bermuda vermelha, além do boné e do chinelo, clichê de trombadinha. Enquanto isso o vi ao longe, atravessando a avenida, indo para uma parte mais movimentada, ao menos liberava o caminho até minha casa e após o atendente da polícia confirmar o pedido de uma viatura na região, fui calmo, mas apenas no momento em que guardei o celular que percebi o quão trêmulo eu estava, certamente não estava nervoso, porém, deve ser um reflexo, como se batessem no meu joelho com um martelinho. O mais estranho é que estou me recuperando de uma tosse e quando fui no hospital, logo no primeiro dia de doença, me perguntaram se eu ficara nervoso naquele dia, questionaram severas vezes isso. Talvez tudo esteja ocorrendo ao contrário.
Volto para casa e fumo os cigarros que reservara para amanhã, para quando acordasse e o dia fosse novo e claro, fumo um atrás do outro, até o filtro gritar. O tempo passa e saio do prédio novamente, ao pisar na calçada é notável o indivíduo, com seu traje colorido, no mesmo local de antes, aguardando nova vítima provavelmente, ele me nota, esqueci que minha roupa é tão colorida quanto a dele, e se esconde em uma ruela sem saída. Retorno ao apartamento, ligo para a delegacia, peço por informações, pois após uma hora o delinqüente permanece nos arredores. O atendente pede para que eu espere em frente de minha casa após eu citar meu endereço, mas olhando pela varanda vejo uma viatura e aviso o oficial de que irei até ela descrever a situação.
Começara a chover, mas era uma chuva daquelas sorrateiras, que é invisível para quem olha pela janela na noite, perceptível apenas sob a contra-luz dos postes ou as marcas nas poças d’água. A luz vermelha da sirene incendiando os becos afugentara o ladrão, ao menos era o que eu esperava, a viatura se dirigiu para o estacionamento do hospital e me dirigi para lá, no mesmo local onde fui abordado pelo ladrão o carro faz seu retorno e eu aceno, assovio, praticamente me jogo no capô do carro em busca de atenção, nada, estou solitário no mesmo local do crime, talvez de trás de um dos carros estacionados o homem apareça, pedindo por dever cumprido.
Eu estava armado, peguei um velho estilete o qual a lâmina nem possui trava mais e o guardei no bolso de trás de minha calça, caso o pior ocorresse, respirei fundo e, cogitando o fato de que o ladrão fora para casa, fui ao banco, porém, próximo da rótula que faz esquina com o banco, o homem aparece no outro lado da avenida, caminhando, dando voltas no bairro, tomado pela coragem de uma singela faca em meu bolso, paro e o encaro ao longe, logo ele me vê e também me observa, imóvel. Gesticulo com os ombros, perguntando o que aconteceria agora, a resposta é nula, ele apenas ergue uma das mãos, convidando-me cruelmente para caminhar até ele, opção negada sem pensar, claro. O chamado prosseguiu até que o homem abaixou o braço e tirou algo de sua cintura, o suposto objeto era inotável na noite, que calou-se perante a ameaça, a chuva não ajudava, mas o objeto não reluzia contra a luz dos postes amarelos da avenida, quem sabe houvesse nada, dei de costas e retornei para casa. Impossível negar que diversas foram minhas olhadas para o lado de lá, esperando ser seguido, o que não fui. Em casa, desta vez nervoso, liguei para a polícia, o mesmo atendente recebeu minha ligação, ao menos parecia, comecei a regurgitar as reclamações pela velocidade do serviço, o quase atropelamento pela lei e, claro, a ineficiência na captura do delinqüente, o rapaz reduziu suas perguntas para uma boa razão minha para não ter ficado no local do crime, minha vontade era de dizer que graças à velocidade de atendimento eu seria uma múmia, mas mantive minhas palavras sem ironia, na continuidade das contestações ele ameaçou atender outra ligação, retruquei dizendo dos impostos que eu pagava, afinal, ele é um funcionário público, não deu em outra, o telefone emudeceu.
Imediatamente disquei para a delegacia novamente, quando a chamada foi atendida minhas palavras não foram outras além de um pedido pelo superior, após breve hiato silencioso uma voz grossa atendeu, comentei meu caso, bem resumido e mais calmo, a negligência do atendente inclusa, após ouvir ele disse que transfereria a ligação para o despachante da região, a chamada cessou e o telefone realizava o telefonema novamente; chamou; chamou; chamou e a ligação caiu.

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