Na Banca de Jornal

Eu estou no meio da Avenida Paulista, deitado no asfalto quente. O clima está mormacento. Os carros desviam de mim. As pessoas me rodeiam. Será que pensam que sou louco? Excêntrico? Meu pai chora sob o meu corpo, estatelado no chão com um tiro no peito.
O plano era conciso, iniciava-se com uma carta de resgate, endereçada ao meu pai. Sim, eu me sequestrei. Pedi trezentos mil reais como pagamento do rapto. Então, eu fugi de casa e deixei o envelope na caixa de correio.
Meu pai é dono de uma rede de supermercados, ele tem dinheiro sobrando, porém nunca me daria tanto. Quero recomeçar minha vida ao lado de Ana, minha namorada, com o dinheiro do resgate iriamos para algum lugar na Paraíba, sairiamos dessa cidade nublada, João Pessoa nos soava bem.
Fui até uma antiga fábrica de velas, Ana estava me esperando. Nós fizemos amor em cima de uma esteira. Ela tinha os cabelos louros tingidos e os olhos castanhos. Ficariamos escondidos por mais três dias então ligariamos para meu pai.
Os dias se passaram através de muita comida chinesa, cerveja e sexo. Ana ligou para meu pai. Ele confirmou o pagamento. Tudo estava dando certo. Nós marcamos que a entrega do dinheiro seria em uma velha banca de jornal. Ele aceitou e então pediu para falar comigo, digo, com seu filho sequestrado. Eu apenas o enrolei, dizendo que não haviam me machucado, que estavam me tratando bem e que se ele fizesse tudo como combinado daria tudo certo. E realmente daria.
O dia nascia. O céu já havia se preenchido com nuvens cinzentas, mas o sereno da noite ainda caia sobre os prédios. Aos poucos, as ruas começavam a adquirir movimento, pessoas começavam a ir para seus trabalhos. Finalmente, um carro importado parou na frente da banca de jornal, a pessoa que saiu por ele não era meu pai, entretando fez o que haviamos programado. Colocou uma maleta embaixo da banca e chutou para a outra extremidade. O individuo entrou novamente no carro e saiu.
Eu estava em uma lanchonete, observando tudo. Coloquei o capuz e fui pegar a valise, me abaixei e peguei-a embaixo da banca, abri-a, nunca o cheiro do dinheiro fora tão bom. Levantei-me e um súbito barulho e um vento cortante atravessavaram meu ouvido, olhei para a banca e sua porta havia levado um tiro. Fiquei atônito, logo outro tiro fez parte da calçada se misturar com o vento. Corri para a parte de trás da banca. As pessoas corriam desesperadas para longe do lugar. Uma bala atravessou toda a lataria da banca, estampando um buraco de bala logo ao meu lado, em seguida, outro buraco, outro susto, cada som de tiro arrancava um pedaço de minha alma. Uma buzina incessante se misturava com os tiros, eu olho para a avenida e lá está Ana, me esperando dentro de um carro, eu saio do meu esconderijo e corro até ela. Outro tiro é ouvido, eu olho para a direção do som, vinha de um prédio ao longe, a bala penetrou o asfalto. A arma dele devia estar descalibrada.
Eu joguei a valise dentro do carro e escutei outro estampido, dessa vez muito mais alto. A bala saiu do revolver de Anna com a palavra “traição” estampada. Ela acertou o único lugar do meu corpo que ela realmente possuia. Eu me escorei com o corpo no carro, manchei a lataria com sangue. Ela pisou no acelerador e foi embora. Desta vez começavamos a nos dirigir por caminhos opostos.
Meu pai apareceu para constatar do fim do sequestrador e encontrou seu filho agonizante na avenida.Ele se ajoelhou e suplicou para que eu não morresse, derramou lágrimas na ferida aberta. Uma ambulancia chegou, me colocaram na maca e estavam me levando embora. Mas do que adiantaria, desde quando uma ferida de traição cicatriza?

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