Tornozelos encravados

A cidade ainda estava úmida, o orvalho escorria nas amarelas faixas que indicavam o perímetro de uma investigação policial em uma casa de classe média, com paredes brancas e jardim com palmeiras. O lugar encontra-se movimentado, policiais entram na casa, fotógrafos; repórteres se amontoam no limite de isolamento buscando pelo enquadramento ideal ou pela frase estampada na manchete.

Carlos é policial forense, desce com outros colegas de uma van, observa a situação, caos em ambos os lados da faixa amarela, respira fundo, entra na área investigada, questiona um dos oficiais no local sobre o ocorrido e ele responde que fora um duplo homicídio. Carlos de passos calmos e serenos, sob a força do hábito, abre a porta da casa, as paredes interiores cheiram a mofo mesmo possuindo brancura impecável, Carlos se dirige ao local onde mais detetives se aglomeram e corpos encontram-se no chão.

Pessoas com lenços sobre a boca e o nariz, os cadáveres expostos, aguardando pela resolução da policia forense para serem cobertos, Carlos observa o ambiente, uma ordinária sala de estar, o carpete já tem o sangue escuro, seco lhe cobrindo, alguns pingos vermelhos no abajur cobrem uma das paredes do cômodo com grandes sombras, no chão, aberto, com as páginas para baixo e sem marcação, O Mundo de Sofia, o morto era um homem de cerca de 30 anos e o método usado para assassiná-lo intrigou Carlos.

As mãos atadas nas costas com arame e lacre plástico, os punhos ensangüentados em resultado de frustrada tentativa de fuga, os pés, amarrados com mesmos materiais na região do tendão de Aquiles, sendo que na parte de trás do pé cerca de dois centímetros foram cortados, prejudicando o funcionamento dos nervos e impossibilitando a locomoção. O arame, em sua circunferência, acomodado dentro da ferida da serra possivelmente provocara uma insuportável dor ao homem. A morte, enfim, fora causada por um corte vertical na região abdominal, profundo o suficiente para perfurar o estômago e atravessar as vísceras.

O ambiente não apresentava sinais de luta, uma tênue marca no pescoço do corpo indica onde o arame poderia ter sido usado anteriormente, Carlos toma nota em um pequeno bloco, chama um dos policiais do lugar e pede um pequeno relatório dos acontecimentos que os levaram até ali: houve uma chamada às duas horas da madrugada por um dos vizinhos que supusera uma perturbação domiciliar, a policia enviou uma viatura que não obteve efeito, os oficiais deram a volta pela casa e avistaram o cadáver, nada, aparentemente, fora roubado da casa, o primeiro corpo possuía requintes cruéis.

Três meses atrás, Carlos cobrira um assassínio onde um homem fora encontrado da mesma forma em uma vala próxima do prédio onde trabalhava, as amarras da mesma maneira e o procedimento do assassinato, não foram encontradas digitais, rastros de sangue que levassem a algo ou qualquer tipo de pista que pudesse avançar no decorrer das investigações.

Carlos pergunta pelo segundo morto e um dos oficiais lhe aponta a cozinha. Os azulejos encontram-se escorregadios de sangue, uma grande mancha que levava da dispensa até a localização do cadáver, uma mulher com idade em torno dos 25 anos, cabelos no chão mostravam a maneira como ela fora arrastada, o mesmo corte na barriga, o mesmo corte nos pés, os mesmos nós de três meses atrás.

A equipe forense investiga toda a casa após a retirada de outros oficiais não encarregados de tal parte do processo, Carlos coordena o trabalho por horas a finco e diferente do caso de três meses atrás, este possui material em demasia: milhares de digitais, fios de cabelo, pegadas. Perseguido pela incógnita, Carlos vai até o vizinho e pergunta o que ocorrera recentemente na casa e este comenta sobre uma festa, de aniversário talvez, Carlos dispensa ele cabisbaixo, retorna ao seu posto e ordena que todos coletem os materiais e os levem ao carro, os detetives iniciam o trânsito de provas acumuladas em caixas, os cadáveres são embalados e carregados para outro carro, do IML no caso, Carlos retira o celular do bolso enquanto a viatura policial é cheia de objetos para possível investigação, liga para seu patrão e relata o ocorrido, este se irrita e pergunta se Carlos não deseja considerar algumas férias, Carlos nega o pedido, o patrão pede-lhe para deixar as investigações de lado pelo dia de hoje e que Carlos vá para casa descansar, Carlos se despede, desliga o telefone, entra em sua viatura e sai da área do crime.

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