Sunrise, de F.W. Murnau

Antes de tudo gostaria de explicar o porquê d’eu estar a escrever este texto para vocês, calouros-colegas: não é por falta de humildade, apesar d’eu carecer de tal adjetivo, mas sim por Aurora ter sido o foco de meu trabalho para História do Cinema I. Sou um amante do filme e o estudei a fundo, logo, tenho muito a contar. Vamos por partes.

Um contexto histórico seria interessante caso a Fátima não o tenha passado: F.W. Murnau foi um diretor alemão famoso por filmes como Nosferatu, Fausto, A Última Gargalhada e diversos outros, essa glória fez com que fosse chamado para visitar os Estados Unidos onde obteve carta branca para fazer o filme que bem entendesse; assim nascia Aurora, que foi um fracasso de bilheterias, pois estreou juntamente com O Cantor de Jazz, o primeiro filme falado, a partir de então o público só queria saber das vozes dos atores, assim Aurora padeceu.

Para falar desta obra-prima precisamos passear pela história das câmeras cinematográficas também, no início as câmeras eram leves, porém presas ao seu operador para que este pudesse girar sua manivela, logo qualquer movimento era feito por outra forma além do operador, já ocupado com o funcionamento da câmera. Então as câmeras foram postas sobre trilhos, já não tão leves, mas para o efeito que Aurora transcende mais que trilhos são necessários.

Há um plano-seqüência, após a saída do Homem de casa para o encontro com a Mulher da Cidade, onde a câmera sobrevoa o pântano, observe o quanto ela desliza sob aquela superfície viscosa e úmida, algo impossível sob trilhos foi efetuado. Esse balé da câmera de Charles Rosher e Karl Struss (estava na hora de citar os nomes dos dois diretores de fotografia) fica mais nítido nos passeios do casal pelo barco, nos quais a câmera não treme, ela poderia estar sob uma plataforma erguida em pleno lago, mas isso reduziria completamente a quantidade de arriscados ângulos os quais o filme propõe a mostrar. Obviamente a câmera não está em um barco, isso causaria com que ela balançasse juntamente com a cena.

Como Aurora fez o que nenhum filme até então conseguira? Murnau soube usar bem a carta branca que obteve da Fox, todo o filme fora feito em estúdio, inclusive as cenas da cidade. O pântano, o lago, a cidade, todos construídos em estúdio, isso não explica as proezas cinematográficas até que lhe digo que eles suspendiam as câmeras através de cabos nos tetos para poderem guiá-la no percurso dos atores ou como lhes bem entendessem.

Permanecendo na fotografia, mas mudando o assunto, as justaposições de imagens existem desde o começo do cinema mudo, quem assistiu ao O Nascimento de uma Nação viu os mesmos planos contendo duas ou três gravações diferentes, entretanto elas não possuíam a nitidez que vemos em Aurora, uma imagem se misturando com a outra e vice-versa, como em sua abertura com os trens e quando a Mulher da Cidade tenta seduzir o Homem a mostrar-lhe os luxos da cidade. Para este efeito Rosher e Struss utilizavam apenas a câmera, enquanto filmavam uma parte da cena que seria justaposta eles cobriam metade da lente com um pano preto, sendo assim, apenas metade do negativo ficava exposto, na filmagem da outra parte eles cobriam o outro lado e, logicamente, filmavam desde o início do primeiro fotograma da outra cena. Os fotogramas precisavam ser contados meticulosamente para esta operação.

Há em Aurora também diversas sobreposições de imagens, como quando o Homem reflete sobre o assassínio que está para cometer enquanto três imagens da Mulher da Cidade assombram seus pensamentos. Bem, elas são feitas com correta exposição da luz sob o negativo. A imagem se registra na película quanto o contato com a luz reage com a substância química do filme e assim grava a imagem, mas se expuseres o fotograma à luz por tempo reduzido, não reagirás todo o produto químico, assim sendo poderás filmar por cima dele, misturando as duas imagens. Isso pode ser feito com a câmara escura que vocês fizeram, apenas dividindo o tempo de exposição do filme à luz entre duas imagens diferentes. Não tenho a certeza se Rosher e Struss fizeram as sobreposições de Aurora desta maneira, não encontrei em fonte alguma informações a respeito, porém, agora vocês tem uma desculpa para brincar com os brinquedinhos da Daraca novamente.

Concluindo o assunto sobre fotografia, com a entrada do cinema falado as câmeras tornaram-se pesadíssimas, os produtores realizavam longos closes dos atores para o povo vê-los falar, toda essa transição foi satirizada em Cantando na Chuva, a liberdade cinematográfica que Aurora criara encontrou represália com o fim do cinema mudo.

Um pequeno parágrafo sobre o som em Aurora, como falei, não é um filme silencioso, mas é mudo, não há falas, porém existe som diegético (dentro da diegése, que seria a narrativa), o badalar dos sinos na igreja, os diversos sons ecoando na mente do Homem enquanto pensa no assassinato, as buzinas na cidade, os trovões na tempestade, entre outros. Como curiosidade: foi o primeiro filme com som gravado da Fox.

Outro breve comentário vem a ser sobre os letreiros do filme, diferente de outros filmes diversos, onde os letreiros servem apenas para comunicar, em Aurora eles fazem parte da dramaturgia do filme de diversos modos: temos a repetição de letreiros para reforçar uma imagem, quando uma senhora da vila comenta sobre como o casal era antes, segue uma cena do Homem e da Esposa em grande alegria (nesta cena que somos apresentados ao bebê deles também), então o letreiro se repete após a cena. Isso ocorre em outros momentos nesse trecho do filme. Nesta cena das senhoras temos também uma “submersão” da legenda do negrume, um complemento que aparece dizendo que a Esposa fica sozinha. Temos também o trabalho com os tamanhos das fontes que estampam os letreiros com o intuito de atribuir mais importância a certa fala, como em momentos fortes da trama, no convite da Mulher da Cidade ao Homem e quando este pede perdão à Esposa. Mas o grande destaque é para o letreiro onde a Mulher da Cidade sugere ao Homem que afogue sua esposa: a palavra “drowned” é tragada para baixo na tela, intensificando o efeito dramático.

Todavia, gostaria de salientar um detalhe na legenda que serve como elipse visual no decorrer do filme: na cena do pântano o Homem olha para cima enquanto a Mulher da Cidade faz propaganda de seu lar para ele, logo vem um letreiro com dizeres a respeito, porém há um detalhe no breu do quadro, nuvens atrás das letras, como se fosse o ponto de vista do Homem e as palavras sedutoras estivessem insertas em sua mente, mas a cena também traduz como o homem estava se sentindo naquele instante, ele estava nas nuvens, nos céus ao lado da Mulher da Cidade, a elipse se realiza quando próximo do final do filme, enquanto abraça a Esposa, o Homem vê anjos celestiais voando sobre sua cabeça, lá está ele no céu novamente, desta vez de maneira mais onírica e poética, sem a sombra da noite.

Aproveitar que citei as elipses visuais e colocarei as outras que se encontram no filme, primordialmente a que não necessita de muita análise no final do filme, quando se sabe que a Esposa segurava os gravetos para boiar na água e quando os barcos a procuram o Homem encontra os gravetos boiando, a impressão pessimista de que a Esposa morrera é óbvia, especialmente pelo tom melodramático que o fim prega, mas era apenas criação de tensão, desmanchada por Murnau no encontro da Esposa (viva). No entanto, a elipse mais bonita de Aurora se vê descrita na concretização definitiva do amor entre o Homem e a Esposa: Após a aventura noturna no início do filme, o Homem retorna para casa e vê sua esposa dormindo em outra cama, logo quem dorme é ele, então temos uma externa do dia nascendo e voltamos para o interior da casa deles, onde a Esposa acalenta o Homem, mesmo sabendo de sua traição na noite anterior, ela o cobre com o cobertor que estava aos pés dele, antes da tempestade começar no final do filme, a Esposa adormece no colo do Homem, que pega um xale e cobre a Esposa, utilizando seu terno para confortar a cabeça dela também. Conclui-se assim que a mesma maneira que se demonstrou que a esposa amava o marido mesmo após o corrido fora utilizada para expor o outro lado da relação.

Aurora pode ser dividido em três gêneros cinematográficos de acordo com a parte do filme: o começo é um suspense, na cidade inicia-se a comédia romântica e o desfecho é melodramático.

O suspense cessa quando o Homem desiste de afogar a Esposa, essas cenas que precedem o evento mostram que é claro que o diretor por trás do filme foi o mesmo que realizou Nosferatu, a aura de medo é constante, além da entrada do espectador nos pensamentos dúbios do Homem. Outro detalhe deste início são os pesos de chumbo que Murnau inseriu nas botas do Homem, para que seu caminhar parecesse pesado, notem como ele sempre está encurvado também. O pormenor das botas é bem exposto na primeira cena na qual ele caminha, quando sai da mesa e vai à janela checar se a Mulher da Cidade está a sua espera, notem como ele caminha com dificuldade.

A parte de comédia romântica é, normalmente, a única que vê-se ser criticada quando alguém tem a audácia de criticar negativamente o filme, pois, na opinião destes detratores, ela seria longa demais e com pouca produtividade para o prosseguimento da história. A perseguição ao leitão é o grande alvo de chacotas, mas na minha opinião é a quebra definitiva do suspense, lembro-lhes aqui do retorno à tensão na cena do salão de beleza, onde o Homem empunha uma faca contra o homem que abordara sua mulher, nesta parte do filme já entrávamos na comédia romântica e a relação dos dois já havia se reconciliado.

Li em minhas pesquisas, críticas classificando essa cena da perseguição como datada. Não foi o que aparentou na apresentação do filme. Mas parem para pensar na graça que haveria nos gags caso o leitão não se embriagasse antes: nenhuma. Além do fantasma, genial. Essa cena é interessante, pois torna o Homem em um herói, dá crédito para ele e mostra que agora ele é um bom homem, além de que o contato com o porco em plena cidade demonstra o vínculo dele com o campo e a fazenda.

Outra seqüência a qual ofereço certo destaque por toda sua découpage é quando ocorre o primeiro encontro físico entre o Homem e a Mulher da Cidade, após o primeiro cruzar o pântano, logo no momento do beijo há um corte e inicia-se a intercalação de cenas para a Esposa chorando com o bebê ao lado, ela se debruça no travesseiro aos prantos e retornamos ao casal no pântano, onde o casal troca carícias, mas quando o Homem abraça a Mulher da Cidade há um corte que nos leva novamente ao quarto no momento em que a Esposa abraça o bebê.

Há mais para ser dito, especialmente se citarmos cena a cena, cada uma é um primor, como àquela cena na qual eles param o trânsito: eles caminham em chroma key, desenhos de carros e bicicletas cruzam atrás deles, para dar a impressão de que estão no meio do trânsito (se pausares na hora certa verás uma borda branca ao redor dos desenhos) e então a mudança de ambiente, como se por mágica.

Pararei por aqui, estamos quase começando a quarta página e não quero torturar vocês, além de que a Fátima precisa dar aula de alguma coisa, ouvi dizer que ela anda muito serelepe. Bons estudos para vocês, calouros, espero que tenham gostado do texto e que tenham o entendido.

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