FAM 2008 – Mostra de Curtas 35mm – 10/06

Desilusão, de Bob Barbosa e Marco Stroisch

FAM é um evento que possui entrada franca, logo, propõe um alcance a todas as pessoas de Florianópolis. Pretende uma disseminação cultural, é gratuito, só não vai quem não quer.

Eu não tinha tanta curiosidade pela mostra de curtas 35mm, mas algo a atiçou: a fila que percorria além da rampa para a entrada no teatro onde as obras seriam exibidas, isso, até então, era incomum na mostra de curtas.

Na apresentação dos diretores o teatro foi consumido pelos aplausos e assobios que ovacionavam o diretor de “Desilusão”, Marco Stroisch, que em seu discurso agradeceu a comunidade que colaborara para a feitura daquela obra e que ali estava presente em parte. . O teatro novamente entrou em alvoroço com a saída dos membros representativos do curta catarinense que a atriz de “De Resto” quase fora emudecida.

“Desilusão” foi o primeiro dos três curtas que passariam naquele começo de noite e é impossível de negar que a reação primordial do público criou certa expectativa. O filme relata a história de diversas personagens, mas seu eixo é a suposta rainha da bateria da escola de samba local. A primeira impressão do filme é boa, ele apresenta bem as personagens e essa idéia de “comunidade” é reforçada pelo cruzar sem conhecimento das personagens dentro do mesmo plano, é nítida a escolha por tentar inseri-los no mesmo lugar, então podemos situar o filme como um relato de diversas personagens de uma comunidade.

Temos várias histórias apresentadas, o menino engraxate, o rapaz que perdeu a namorada, a rainha da bateria que o deixou para com outro cara tentar alguma chance na vida e este último indivíduo que tem seu poder político posto em jogo pelo dono do bar que o ameaça após uma frustrada promessa de patrocínio.

Esse trabalho de introdução das personagens é de um primor ímpar, saliento aqui a cena do bar, onde duas personagens são introduzidas ao público e duas são aprofundadas psicologicamente em um mesmo plano. Mas o que se destaca nesse início de filme é também o que descamba em seu desfecho. Como citei, diversas personagens são inseridas na história, mas o final do filme além de soar como uma solução fácil, acaba por não resolver os conflitos que a trama apresenta. Quando apareceram os créditos coloquei em xeque o filme.

A história principal, da rainha da bateria, tem seu ápice quando fotos dela nua são encontradas na Internet e sua imagem na comunidade é destituída, elemento que a impossibilitaria de tornar-se o que almejava. A proposta de patrocínio público oferecida pelo seu novo amante é negada e a ameaça de morte do dono do bar faz com que o medo se aflore nesta personagem. Eles entram no carro e, na tentativa de desviar do menino engraxate (que virou vendedor de dvd’s no intuito de montar um boi de mamão), batem no túnel e falecem.

Essa resolução por si só é falha, dá um tom de que o argumentista não sabia como terminar a história e escreve mais algumas linhas que o permitem um THE END rápido. É muito fácil pensar que a morte das personagens faça com que suas histórias adquiram um desfecho adequado.

Supondo que a morte atribuía uma conclusão para a história, temos ainda diversos pontos sem nó, o ex-parceiro da rainha tem sua história concluída com sua passagem vestido de pierrot e uma lágrima da protagonista-eixo, essa personagem é uma das que nos leva a perguntar do por quê de sua existência, a única razão palpável aos meus olhos foi uma tentativa de humanização da rainha da bateria, mas utilizar um “romance” para inserir isto não deixa de ser um caminho fácil. Levando desta maneira ele seria uma personagem a esmo, que cumpriria uma função dramática na criação de outra personagem, pena que todo o destaque que sua história e sua criação ganhem no filme (ele é uma das personagens trabalhadas na bela cena do bar já citada) soem em vão.

Contudo, a história mais controversa é a do menino engraxate. Diferente das outras, onde as personagens se conhecem e se misturam, o menino tem sua história narrada solitariamente, não divide a atenção com outras personagens principais e só se mistura na história na fatídica cena do acidente. A presença dele sim, fez ecoar a grande indagação do porquê de sua presença. A ausência de qualquer envolvimento seu com as outras personagens nega qualquer tentativa de sua interferência na densidade das outras tramas, então insiro uma questão bem nítida na quimera do garoto em criar um boi de mamão, elemento da tradição catarinense: bairrismo.

A afirmação acima pode soar ofensiva ou até pejorativa, todavia o espectador a par da recente filmografia catarinense pode sentir que esta tentativa de inserção da cultura regional nas obras é algo que permeia diversos projetos. O porém é que em outros filmes essa intenção aparenta ser simplesmente um fechamento neste espaço litorâneo, o que repercute na ínfima distribuição do cinema catarinense no restante do país, já em “Desilusão” a gratuidade na qual a trama do menino que sonha com sua peça de boi de mamão é imposta na narrativa atesta uma tentativa de agradar a parcela crítica-conservadora do estado, que valoriza o filme não pelas suas qualidades cinematográficas, mas sim na maneira que ele é concebido como simulacro cultural.

Os créditos subiram e uma cena gratuita intercala o prosseguimento dos créditos. O filme fora ovacionado novamente, os mesmos assobios e aplausos de antes, efetuados em parte pelos espectadores que participaram direta ou indiretamente da realização do filme. O coro foi grande e se esse barulho reflete a quantidade de pessoas que votaram no filme como o melhor daquela apresentação, não resta dúvida de que o filme tem grande chance de ganhar algo na premiação do festival e agora a questão não é apenas sobre o filme e sim na validade que possui esse voto premeditado antes mesmo da apresentação de qualquer outra obra, esse voto-amigo que me assombrou enquanto as palmas demoravam a extinguir-se.

Perto de Qualquer Lugar, de Mariana Bastos

Esse esquema de sucessão de um curta para o outro, sem uma temática que os vincule pode mal influenciar o crítico. O único fator que justifica a junção de tais obras em uma sessão é seu formato. Digo isto, pois esta obra paulista teve bom destaque em minha visão, se foi por contraste com o filme anterior ou pelas suas qualidades próprias é o que devo tentar defender aqui.

Perto de Qualquer Lugar é uma obra jovem que discute o mundo jovem na visão de uma personagem que recém tivera sua primeira experiência sexual e, aparentemente, acaba por se apaixonar pelo seu parceiro.

As personagens são bem apresentadas em uma festa que resulta no ato sexual da protagonista. Por incrível que pareça a personagem do rapaz que a garota se relaciona mal nos é apresentado na trama, há nenhuma intimidade com ele no filme além da presença de nosso olhar em plena privacidade dele, a qual é mais correspondida pela personagem que carrega o filme, que viria a ser nossos olhos e ouvidos na narrativa.

A obra se sucede nas diversas tentativas da protagonista em comunicar-se com seu “parceiro” e seus relatos com sua (aparentemente) melhor amiga, esta que é a segunda personagem melhor trabalhada e oferece certa extroversão à protagonista.

Nada é inserido na obra sem um devido pressuposto, até mesmo uma terceira personagem, rasa como um pires, nos é exibida como mensageiro ao revelar para a protagonista que a pessoa que procura não estava disponível. O enfoque do filme concentra-se na protagonista e, em segundo plano, sua melhor amiga.

Sem mais delongas, a obra, inteligentemente, utiliza do granulado que a filmagem noturna com pouca iluminação gera para exteriorizar os conflitos da personagem, a noite seria o lar de seus dilemas, o primeiro com sua perda de virgindade, o clamor juvenil que ela ali vivia, “sem forçar”, o segundo na festa que conclui o filme, quando o seu desejado simplesmente a deixa de lado. Neste momento, quando a cena intercala seqüências da protagonista, sua melhor amiga e do jovem, as imagens da primeira possuem uma granulação acima do normal (até mesmo do já imposto pelo filme), como se propositalmente tivessem aumentado o ganho da câmera no propósito de uma estética. Funcionou.

A montagem também tem seu valor e, quando se arrisca nos jump cuts, acerta. Difícil não citar o trabalho que o filme faz com o tempo, a obra é enxuta, não há tempo desnecessário ali, poucos são os planos destinados apenas para mostrar que a protagonista saiu de um lugar e foi para outro, estes seriam, por sinal, minha única ressalva com relação a montagem do curta.

O desfecho é aberto, mas deixa bem claro que a protagonista fora iludida em uma paixão e não obteve a resposta que desejava. O seu querido a ignora para conversar com uma “amiga”, essa outra nunca é exposta, mas um tênue trabalho do filme em uma conversa da protagonista com sua amiga e na inserção desta última na seqüência de cenas intercaladas, provavelmente, levou uma moça ao meu lado a me perguntar: “ele está com a amiga dela, né?”. Difícil dizer sob as condições que o filme apresenta, mas apenas o seu poder de suposição já é algo admirável (mesmo não sendo dos mais complexos).

Aplaudi, desta vez os sons foram mais amenos do que na apresentação anterior, mas esse foi outro motivo para eu aplaudir mais forte e ter sido quem puxou o bater de palmas, o fiz na tentativa de mostrar um filme muito pessoal, que tem a humildade de parecer tentar acalentar ninguém além da diretora.

De Resto, de Daniel Chaia

A mais curta das obras apresentadas nessa sessão demonstrou certo risco. Apesar do humor involuntário que a mórbida trama oferecia, ela foi bem concisa em contar sua história.

Destaque para o contraste da imagem e do som nas seqüências que dividem o tempo do filme, aquela música e barulho de festa em contraste com o silêncio e imagem da varredura das protagonistas.

Muitas pessoas que conversei depois da sessão disseram que se irritaram com essas cenas, mas ao meu ver as considerei como recursos interessantes para interromper a narrativa das protagonistas e dar lugar a um novo dia, uma nova festa, uma nova leva de idéias. Essa brutalidade do contraste também era reforçada pelos abruptos cortes que precediam essas transições temporais.

A história é simples, uma das faxineiras encontra um dedo no meio da sujeira e cria certo afeto por ele, na esperança de que o dono apareça para recuperá-lo. Esse devaneio, um tanto absurdo, verdade, causou certas gargalhadas no decorrer da sessão, mas nada que pudesse desviar o espectador atento ao foco do filme, que trabalha com certa sensibilidade esse caso carregado de espírito putrefato.

A fotografia é em tom de verde, o que não é complexo de se adquirir devido à acessibilidade das lâmpadas neste tom no mercado. Precisa-se ser nenhum especialista para adquiri-las e elas conferem à cena o acompanhamento para a morbidez que se compõe no quadro.

As risadas prosseguiam mesmo sob a visão das belas atuações das atrizes, elas que carregavam o filme nas costas.

O desfecho do filme é dotado de um carisma muito grande, que pode se atribuir ao próprio contraste do som já citado. O som de festa exibido cerca de três vezes no curta é cacofônico, alto, barulhento, quiçá perturbador e a faxineira responsável pelo dedo encontra seu possível dono em um músico de acordeão, que toca sozinho sua canção em pleno sol (aqui saímos do tom de verde). Essa discrepância acrescenta um cuidado a mais com o design de som do filme.

Algo que vale salientar, não apenas por este filme, mas por todos os apresentados no dia de hoje, é que, indiferente dos outros dias, nunca esteve tão nítida essa diferença entre o cinema catarinense e o de outros estados (mais acostumados com o cinema, neste caso, São Paulo). O filme catarinense que se fecha em suas próprias referências, suas culturas e impossibilita uma exportação da obra para os cantos do país, é filme catarinense para catarinense. Enquanto as obras paulistas exibidas juntas da obra regional, provaram-se possíveis de exportação pelo simples fato de estarem concorrendo em um festival de outra região do país, mas é incrível como as histórias diferem, a simplicidade dos dois últimos curtas, além de terem sido bem trabalhadas, acrescentam a eles uma universalidade ausente no cinema fechado catarinense.

Texto realizado para a revista Punctum, sujeito a alterações ante publicação.

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