Minha romã

Eu trabalho com amor. Grandes histórias sempre possuem o amor em suas entrelinhas, seja o amor á primeira vista, o amor desvanecedor, a falta de amor, o amor perdido, o amor platônico, amor a alguém, amor a algo. Mesmo somente o glacê de muitas histórias, o amor está lá e, veja só, o gosto relembra glacê. Limão, ameixa, pêssego, laranja, o sabor varia com o amor que se descreve e se eu persistir a almejar esse fardo de contador de histórias preciso, ao menos superficialmente, degustar essas frutas todas. Jamais tendo provado romã eu poderia ter uma idéia de como ela é, uma idéia pura, pois é imune às interferências da própria e de outros detritos possíveis. Não posso escrever sobre “a romã”, mas sim (e apenas) sobre “minha romã”, em suma, nem sempre um contador de histórias é apto a transcrever algo real, universal, ou ele seria um redator de obituários, publicando a morte da imaginação. Aquelas palavras escritas à caneta tinteiro ou digitadas atualmente, cruzam nossos olhos com suas formas cuneiformes e tornam-se imagens. Isso pode ser chamado de nada menor que uma drástica metamorfose e cada pessoa apresenta um casulo diferente para a mesma larva. A questão é que tal transmutação ocorreu também quando essas palavras tingiram celulose ou pixels, enquanto as palavras formavam-se letra por letra sob a ação do teclar ou do extenuante tracejar da esferográfica, o quarto ganhava um abajur, a camiseta uma estampa e o amor ganhava um capítulo para guardar para si.

Essa é uma de minhas formas de amar, uma das maneiras de dizer “assim como você, sou capaz de amar” e não é por ler. É pelo momento onde coloco o caderno em cima das pernas, aproximo a cabeça da página a tentar ignorar a fraca luz e escrevo com minha velha lapiseira ou quando transcrevo todas as palavras para o computador, libertando-as do peso da capa de papelão que sela minhas folhas. É minha maneira de esclarecer que sem tais entes eu não viveria isso. Não se trata de uma dependência, viver é o de menos, qualquer um consegue, o que eu amo é viver o isso, e sempre tento retirar todo o sumo dela pertencente, até que eu tenha que aguardar novos frutos. O amor, atualmente para mim, não é uma necessidade, algo vicioso e obcecado, mas sim um prazer, uma honra e acima de tudo uma escolha, o que demanda sacrifícios, mera entrada do pagamento de se fazer o que se ama. Não se ama eternamente ou incondicionalmente, ama-se o segundo quando a garota que sonhavas na adolescência olhara para você no corredor da escola; o dia em que você e seu cônjuge deitaram-se na cama e encheram-se de cócegas; os minutos em que me aventurei para escrever este texto; o momento onde deste uma bela mordida pelas sementes de uma romã.

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2 thoughts on “Minha romã

  1. Pingback: Melhores textos « Like Dylan…

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